‘usted nunca ha parido’: a voz de María Auxiliadora Álvarez

Imagem de Kawamaru, por Pixabay.

Tenho verdadeiro apreço por antologias poéticas, seja de um único autor ou vários. Nas antologias tenho acesso a uma porção do que é a obra do autor, o que eventualmente me leva a uma descoberta de vida, uma referência sobre um estilo de escrita ou assunto. Sempre me sinto mais livre para ler (ou não ler), passar as páginas descompromissada, saltando entre autores de estilos completamente diferentes, voltar a um poema e me demorar nele. Ampliando o apreço que tenho aos textos poéticos, gosto dessa liberdade de leitura de puro prazer.

Uma dessas antologias que sempre me convida à leitura despretensiosa é a 25 ANTENAS: poesía hispanoamericana (2017), cuja seleção se baseia em poetas que participaram das 25 primeiras edições do Festival Internacional de Poesía de Rosario, Argentina. São diversos nomes da literatura, nascidos entre os anos de 1924 a 1961, de vários países do continente, como Chile, Venezuela, Uruguai, entre outros. Me chama a atenção o fato de a maioria ser poetas pouco ou nada conhecidos no Brasil, em razão de diversas barreiras, embora na América hispano-falante circulem bastante.

A poeta María Auxiliadora Álvarez me atraiu imediatamente, quando li um primeiro poema de sua autoria, número 5, sala de parto, que pertence ao livro Cuerpo, lançado em 1985. É importante evidenciar a relação entre o título da obra e os poemas que a constituem, na qual se revela um corpo parturiente em franca disputa por autonomia em um espaço médico, controlador e indiferente às necessidades da mulher, que deveria ser a prioridade, o centro do processo.

O corpo da mulher, nesse contexto, se mistura ao corpo do poema, que passa a ser um grito de denúncia à aniquilação das demandas e protagonismo no momento do parto. Uma voz que rasga as páginas com uma linguagem direta e cortante, original e potente. A dor, o sangue, a lucidez, a força, a vida, afinal, toma seu lugar, reconfigurando e ressignificando o espaço hospitalar de obediência e passividade. Os poemas de Álvarez nos convidam à realidade vivida sem meias-palavras, um corpo altivo, que conhece e reivindica seu lugar.

5
                  sala de parto

MOSAICOS      RESES      CUCHILLOS

cocina que desuella sin anestesia porque su
dueño se lava con ella el órgano tibio por si
acaso cauteriza su conducto lácteo se ríe ce-
rebral enjagua sus nervios sensitivos duerme

lejos
de los colchones plásticos
amnióticos
sangrientos
de la hilera
panza bonete libro cuajar rajar sacar
           el relleno
ordenar los mosaicos
coser

5
                  sala de parto

MOSAICOS      VACAS      FACAS

cozinha que pela sem anestesia porque seu
dono lava com ela o órgão morno se por
acaso cauteriza seu conduto lácteo se ri ce-
rebral enxágua seus nervos sensitivos dorme

longe
dos colchões plásticos
amnióticos
sangrentos
da fileira
pança touca livro talhar cortar tirar
           o recheio
ordenar os mosaicos
costurar

No ano em que adquiri essa antologia, 2018, também lancei uma plaquete que, entre outros aspectos, versa sobre a exposição do corpo da mulher, que sofre duros golpes, expele fluidos, sangue, lágrimas e dor. A conexão com a autora foi imediata, parecia que ela estava conversando comigo, dizendo algo como “ya no estás sola”, e foi realmente acalentador sentir um eco reconfortante nos versos de Álvarez, poema publicado quando eu sequer havia nascido.

A tradução eu acabo vivenciando como uma aproximação afetiva com o texto, desde o momento da escolha das autoras, dos poemas que serão traduzidos, se estabelece um encontro de afetos, um roçar de intenções que me leva ao resultado que compartilho aqui. Claro, esses resultados são sempre de teor provisório, processual, pois acredito que a tradução está sempre para ser feita, revista e refeita, conforme vou ampliando minhas experiências. Por isso, o gesto de publicar algumas traduções aqui é importante, dando um sentido de “finalização” para elas, que eventualmente serão revistas no futuro, evidenciando o aspecto processual da minha vivência como tradutora.

1

hubiera podido reunirlo
el dinero doctora
vaca amarga castrada que me agrede
para tener mejor asistencia
su ojo más detenido
si el embarazo durara varios años
a medida que me hubiera ido inflamando
cada arcada
                                 cada pelo que cayese
cada estría
lo hubiera ido guardando
recordando
                        su baba
bata blanca sanguinaria
porque yo trabajo mucho
vaca baba bata blanca corrosiva que me agrede
lo hubiera ido reuniendo
                                 desde niña
de haber tenido alguna pequeña inflamación
                                                    que lo indicara
a medida que usted fuera estudiando
yo lo estuviera contando

abajo
al centro de mis cuclillas
donde ahora usted lo busca
su baba blanca castrada
no se le hubiera ensuciado
con mis fragmentos acuosos
hijo carnicero órgano semental
hubiera podido reunirlo
el dinero doctora
porque yo trabajo mucho
baba amarga                     vaca blanca

1

teria podido juntá-lo
o dinheiro doutora
vaca amarga castrada que me agride
para ter melhor assistência
seu olhar mais atento
se a gravidez durasse vários anos
a medida que fosse me inflamando
cada arcada
                                 cada cabelo que caísse
cada estria
teria ido guardando
lembrando
                        sua baba
bata branca sanguinária
porque eu trabalho muito
vaca baba bata branca corrosiva que me agride
teria ido juntando
                                  desde menina
de ter tido alguma pequena inflamação
                                                   que o indicasse
a medida que você fosse estudando
eu o estivesse contando

abaixo
ao centro de minhas cócoras
em que agora você busca
sua baba branca castrada
não o teria sujado
com meus fragmentos aquosos
filho açougueiro órgão seminal
teria podido juntá-lo
o dinheiro doutora
porque eu trabalho muito
baba amarga                      vaca branca

***

***

4
usted nunca ha parido
no conoce
                   el filo de los machetes
no ha sentido
                   las culebras de río
nunca ha bailado
                          en un charco de sangre
querida
doctor
no meta la mano tan adentro
que ahí tengo los machetes
que tengo una niña dormida

y usted nunca ha pasado
                                                      una noche en
la culebra
usted no conoce el río

***

11
conozco
el tiempo de cocción de las legumbres
las verrugas de las ratas
la importancia de ser hembra
lo tácito de la procreación
me detengo
               en el genital y el alimento
                              cada día
                y recibo de ellos una vida
                                         y una muerte
                                                           renovables
y voy desarrollando
                           un acercamiento
                                             de maxilar de culebra
y voy desarrollando
                           un sabor sicópata
                                                         en la lengua
mientras juego con la basura
y los excrementos
                               de mi hija
a ella le enseño
                         la propiedad afectiva
                         de los dementes
                                              y los mamíferos diarios
muertos en la cocina

4
você nunca pariu
não conhece
                   o fio dos facões
não sentiu
                   as cobras do rio
nunca dançou
                          em uma poça de sangue
querida
doutor
não meta a mão tão dentro
que aí tenho os facões
que tenho uma menina adormecida

e você nunca passou
                                                       uma noite na
cobra
você não conhece o rio

***

11
conheço
o tempo de cozimento dos legumes
as verrugas dos ratos
a importância de ser a fêmea
o tácito da procriação
me detenho
                no genital e no alimento
                              cada dia
               e recebo deles uma vida
                                         e uma morte
                                                          renováveis
e vou desenvolvendo
                          uma aproximação
                                             de maxilar de cobra
e vou desenvolvendo
                          um sabor psicopata
                                                        na língua
enquanto brinco com o lixo
e os excrementos
                               de minha filha
ensino a ela
                        a propriedade afetiva
                         dos dementes
                                             e os mamíferos diários
mortos na cozinha


María Auxiliadora Álvarez é poeta, crítica literária e cultural, com diversas publicações, entre as quais destacamos os poemários Cuerpo (1985), Ca(z)a (1990), Inmóvil (1996), Pompeya (2003), El eterno aprendiz y Resplandor (2006), a autora também publicou seus poemas em diversas antologias. Nasceu em Caracas, capital venezuelana, em 1956, e desde 1996 vive nos Estados Unidos, onde cursou mestrado e doutorado em literatura transatlântica, e atualmente é professora universitária. 

As traduções aqui publicadas partem de poemas de Álvarez publicados na antologia 25 ANTENAS: poesía hispanoamericana (2017), originalmente publicados na obra Cuerpo (1985).

del dobladillo de la lengua: uma tradução de Briceida Cuevas

Acervo pessoal

Com uma poesia intensa, com os sons e ritmos próprios da língua maia, Briceida Cuevas nos brinda em seus versos diversos fragmentos do cotidiano, envoltos na voz de mulher que habita os espaços da casa, formando um todo complexo, no qual podemos nos abundar da beleza da simplicidade à nossa volta.

Os objetos da vida diária falam conosco, se comunicam mediante sentimentos traduzidos em imagens poéticas que vem da experiência da mulher maia, que busca em sua ancestralidade nos desvelar um presente.

Tudo se torna potencialmente animado, sensível, dotado de intenção. Vertiginosamente, a metáfora se faz real. (Vapnarsky, 2008, p. 14)

Esta voz íntima e cotidiana é plasmada em sua poética delicada, com uma linguagem translúcida encarnada em seus versos de fina sonoridade e metáforas íntimas do corpo relacionado ao espaço habitado. Este diálogo entre autora e leitores é ampliado por seu compromisso em traduzir seus poemas, originalmente escritos em maia, ao espanhol alcançando pessoas de outras regiões do México, onde vive, e outros países.

Segundo Valentina Vapnarsky, autora do prólogo no qual me apoiei para este texto de apresentação de Cuevas, a poeta aproveita o estado de ânimo do momento em que os poemas estão recém-escritos para traduzi-los ao castelhano. O poema em seu estado original, nascido na língua em maia, possui sonoridades intrínsecas que valem a pena serem apreciadas na leitura dos poemas ou escuta.

Sentir na boca e no ouvido as ressonâncias das harmonias e desarmonias vocálicas, o rebote dos fonemas glotais, a ênfase das reduplicações silábicas, a trama sutil das consoantes, seus deslizes sibilantes, seus golpes e cortes, suas pulsações e cesuras. (Vapnarsky, 2008, p. 17)

Extraí do já citado prólogo da coletânea Del dobladillo de mi ropa informações sobre a sonoridade da língua maia para auxiliar na leitura dos poemas.

“As glotais (provocadas pelo fechamento brusco das cordas vocais) estão indicadas com um apóstrofo. Depois, ou entre vogais, a glotal corresponde a um silêncio abrupto e breve. Quando está associada a consoantes (p’, t’, k’, ch’, ts’, para o maia yucateco) provoca uma espécie de pequena explosão que se junta ao som de cada consoante” (Vapnarsky, 2008, p. 17).  

Estes poemas me emocionam sempre que retorno. Uma leitura nova, me proporciona o reencontro com um passado entre mulheres que pareço compartilhar desde sempre. É uma sensação de pertencimento, como se cada poema falasse de uma história compartilhada, mesmo com diferenças espaciais, culturais e linguísticas. Acho que a poesia pode ser cruzar oceanos, territórios, corpos e línguas, permanecendo o sentimento de ser tocado pela matéria da palavra.

Naj

Le naja’ tu ye’esik u ch’ala’atel
síiskunaja’an tumen ke’el.
Ti’ u xa’anil u jo’ole’
tu ch’ajch’ajáankal u yalab ki’imak óolal.
Ti’ u táan u yiche’
ts’o’ok u jawal u pokpokxiik’ u páakat ku je’elsikubaj tu
                                  [páakab che’il kisneb.
¿Ba’ax k’iin ka wixa’ab u pak’il tumen áak’ab?
Ts’o’ok u káajal u t’inik yo’ kabil u xiich’e’.
Ichile’
juntúul amej u tsolmaj u tikin xiik’ xk’uulucho’ob.
Máaso’obe’
tu jáalchi’itiko’ob u jíilibil u bek’ech suumil
                                  [ch’e’eneknakil.
Jáalmooye’ tu tsi’iktik u k’a’asaj.
Ba’ale’ leili’,
kex beyo’ leili’ u machmaj u k’ab yéetel koot
tu báaxal pilinsuut,
tu k’íilkabtik u lu’umel.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 32.

La casa

Muestra la casa sus costillas
humedecidas por el frío.
De sus cabellos de palma
gotean resquicios de alegrías.
En su rostro
ha cesado de aletear su mirada que descansa en el
                                  [marco carcomido de sus ventanas.
¿Cuándo la noche orinó sus muros?
Exhibe sus venas.
Adentro
una araña colecciona alas disecadas de
                                  [cucarachas.
Los grillos
desovillan hilos de silencio.
Cada rincón desmenuza recuerdos.
Pero así,
aun así
de las manos tomadas con la albarrada
la casa juega a la ronda,
suda su polvo.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 33.

A casa

Mostra a casa suas costelas
umedecidas pelo frio.
De seus cabelos de palma
pingam resquícios de alegrias.
Em seu rosto
parou o alear de seu olhar que descansa no
                                  [batente carcomido de suas janelas.
Quando a noite urinou em seus muros?
Exibe suas veias.
Adentro
uma aranha coleciona asas dissecadas de
                                  [baratas.
Os grilos
desfiam fios de silêncio.
Cada canto esmiúça recordações.
Mas assim,
ainda assim
de mãos dadas com a albarrada
a casa brinca de roda,
sua seu pó.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 33.

Táan u yok’ol k’óoben

K’óobene’ tu tsikbaltikten u kuxtal.
Táan u jats’ik in wich yéetel u múus iik’.
Tu ye’esikten u teejlil u tuunchil,
bey xan u yeellil u yich,
ku ye’esikten u ta’anil tu kíimil,
bey xan u k’áak’il ma’ t’aabal tu beel.

Ku jopken yéetel u muk’yaj.
Mix ba’al ku páajtal in wa’alik.
Kin ts’áik majni ti’ leti’ in wich
ka páajchak u yok’ol.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 34.

Llora el fogón

El fogón me cuenta su historia.
Su aliento golpea mi rostro.
Me enseña sus heridas,
rostro chamuscado,
cenizas moribundas,
la deformidad de sus llamas.

Ardo en su angustia.
En silencio
le concedo mis ojos para que llore.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 35.

Chora o fogão

O fogão me conta sua história.
Sua baforada golpeia meu rosto.
Me mostra suas feridas,
rosto chamuscado,
cinzas moribundas,
a deformidade de suas chamas.

Ardo em sua angústia.
Em silêncio
concedo-lhe meus olhos para que chore.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 35.

A yáax tuup

Tumen chan ch’up síijikech,
a na’e’ tu jíiltaj jun t’i’in u bek’ech súumil u puksi’ik’al
ka tu julaj ta xikin a yáax tuupintej.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 80.

Tu primer arete

Porque naciste hembra
tu madre jaló un hilo de su corazón
y te lo enhebró en la oreja como tu primer arete.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 81.

Seu primeiro brinco

Porque nasceu fêmea
sua mãe urdiu um fio de seu coração
e te passou pela orelha como seu primeiro brinco.


CUEVAS COB, Briceida. Ti’ u billil in nook’. Del dobladillo de mi ropa. México, 2008, p. 81.



Briceida Cuevas Cob nasceu em 12 de julho de 1969, em Campeche, Tepakán, México. Poeta maia bilíngue e articuladora social, é fundadora da Asociación de Escritores en Lenguas Indígenas de México. Participou de encontros literários nacionais e internacionais, publicou seus poemas em diversas revistas, além dos poemários U yok’ol auat pek’ ti kuxtal pek’ / El quejido del perro en su existencia (1995), Je’ bix k’in / Como el Sol (1996), Ti’ u billil in nook’ / Del dobladillo de mi ropa (2008), além de outras antologias.

la serpiente, mi tono: um poema de Gloria Anzaldúa

Glória Anzaldúa é das escritoras para ter sempre por perto. Como uma leitura é sempre diferente da outra, sempre retorno a ela. Nas quase 300 páginas de sua obra Borderlands/La frontera: la nueva mestiza (Capitán Swing, 2015) somos levados a muitos lugares, passeando pela história, por seus poemas e autobiografia, em uma linguagem que mescla gêneros e tipos textuais, resultando na fusão de uma terceira via para a existência.

Por força da história de seu território ancestral, de grilagem e aviltamento da população originária, Anzaldúa fundou uma nova maneira de viver a experiência da fronteira. Desde a colonização espanhola, até as guerras com os Estados Unidos, os antigos donos da terra que hoje correspondem aos territórios estadunidenses Texas, Novo México, Arizona, Colorado e Califórnia, há séculos se viram pulsados ao movimento migratório de construção e ressignificação cultural e identitária.

Sem relativizar sua importância, reconstruir o território ancestral espacialmente vai além de tomar de volta as terras que sempre pertenceram aos antepassados, perpassa também pela retomada dos símbolos culturais que foram silenciados pela lógica colonial, recontando sua história e seus significados profundos na pisque coletiva.

Coatlicue, a serpente que encarna os dualismos da vida humana, nos revela o contraditório: “a águia e a serpente, o céu e o submundo, a vida e a morte, o movimento e a imobilidade, a beleza e o horror” (ANZALDÚA, 2015, p. 97). Em náuatle, o sufixo clue significa “saia”, termo empregado para descrever características facultadas à mulher, e Coatl significa tanto “serpente”, quanto “gêmeo”. Esta é uma das imagens mais poderosas, exprime o poder da criação e da destruição, é a Mãe Terra que nos dá a vida, de onde viemos, e nos tira, sendo também para onde vamos: nos traga.

Não tem cabeça. Em seu lugar saem para cima, como um borbotão, dois jatos de sangue, que se transformam em duas enormes cascavéis idênticas que se olham uma a outra e simbolizam o caráter terrenal da vida humana. Não tem mãos. Em seu lugar há outras duas serpentes em forma de garras como de águia, que voltam a aparecer nos pés: garras que representam o cavar tumbas na terra igual à águia em direção ao firmamento, a força masculina. De seu pescoço pende um colar no qual se alternam mãos abertas e corações humanos. As mãos simbolizam o ato de dar vida; os corações, a dor da Mãe Terra ao dar à luz a todos seus filhos, igual à dor sofrida pelos humanos ao longo da vida em sua dura luta pela existência. Os corações representam também o arrebatamento de vidas por meio de sacrifícios aos deuses em troca de que preservem o mundo. No centro do colar pende uma caveira com olhos vivos nos ocos. Outra caveira idêntica aparece junta ao seu cinturão. Estas representam a vida e a morte juntas como parte do mesmo processo.” (ANZALDÚA, 2015, p. 97).

Após ler o livro, permanece a potência da Coatlicue reverberando, sinto o poder da transformação da vida humana expressa nesta imagem, imbricada na vida e obra de Gloria Anzaldúa. Compartilhando um pouco da minha leitura, apresento um poema traduzido para o português.

Tive que descer

Quase nunca ponho os pés nos andares de baixo.
     Madeira que range ao dilatar-se       contrair-se
     pulso errático da caldeira,
              animal selvagem que chuta sua jaula de aço
                       me           assustam.

Não sei o que me impulsionou a descer.
Deveria ter esperado até o dia seguinte.
As escadas estavam escuras,
diabos de pó redemoinhavam nos cantos
e as bordas do tapete que se desenrola
me perseguiam como uma criança abandonada
que se deixa muito tempo com a fralda suja,
pó que desce pela minha camisola.

Me detive no primeiro andar
tremendo de frio
segurando minha vassoura pá esfregão e balde.
Acendi cada luz,
retirei cortinas engrossadas pelo tempo,
raspei as lágrimas secas das janelas,
tirei da cama os lençóis duros,
levei o vulto ao andar de baixo.

Tive que abrir uma costura na parede,
abrir a porta à força
com a unha de um martelo.
Ouvi passos no porão
havia penetrado um intruso.
Mas só era uma rajada de gotas de chuva
que batiam nas janelas
ou o vento que me arrancou a vela da mão.

Fiquei de pé entre as árvores de inverno
cinzas e desfolhadas no quintal afundado
o céu vasto e eterno.
Recolhi a madeira podre.
Levei um tempo para acender o fogo.

A casa de encheu de fumaça
antes que pudesse tirar as folhas
e o buraco animal peludo na tubulação do fogão
antes que pudesse limpar os tubos.

Já não podia mais adiar.
Tinha que descer.
Tinha lavadora e secadora no porão?
Movia a lâmpada de querosene ante mim.
Os degraus descendentes haviam desaparecido.
Vi-os tombados de lado.
Teria que me agachar
e logo cair,
esperando não quebrar nada.

O chão da terra amorteceu minha queda.
Um azedo cheiro de terra espessava o ar
do cavernoso quarto
ladeado por quatro quartos menores
com entradas em arco.
Pisei em um cabide de roupa
que meu susto ficou suave
como um chiclete ou uma cobra.
Teias de aranha envolviam as estreitas janelas.
Limpei-as com uma vassoura.
Entrou um pouquinho de luz da lua.

Uma parede meio destruída
se mantinha entre montes de tijolos,
estrados e cabeceiras apoiados contra ela.
E sobre uma cadeira rota descansava um vestido
carmim desgastado quase cor de rato.
O encaixe em torno do pescoço e as mangas jazia murcho
mas estava firme ao tato.

Não encontrei lavadora
mas sim uma pia de cimento
apoiado em quatro grossos pés.
Em lugar de canos e manivelas
vi uma boca e dois olhos.

Uma forma escura de alçava próxima ao centro.
Era um aquecedor quadrado de ferro forjado
apoiado em uma plataforma de madeira.

Limpei o limo do medidor
H. E. Smith, Massachussets.
Saíam dele tubulações tão grossas como minhas cadeiras,
outras mais finas pendiam do teto em filas.
Não foi até que enchi
de agua o medidor de cristal
quando tropecei com algo
que sobressaía do chão.

Uma raiz retorcida havia atravessado
o ventre da casa
e de algum modo um broto
havia crescido na escuridão
e agora se erguia uma arvorezinha
nutrida por um sol noturno.
Então escutei de novo
passos que se arrastavam
pelo chão de terra aplanada.

Eram meus pés que faziam os ruídos.
Eram minhas pisadas que tinha ouvido.

Tuve que bajar

Casi nunca pongo pie en los pisos de abajo.
     Madera que cruje al dilatarse       contraerse,
     pálpito errático de la caldera,
              animal salvaje que patea su jaula de acero
                       me           asustan.

No sé qué me impulsó a bajar.
Debería haber esperado hasta el día siguiente.
Las escaleras estaban oscuras,
diablos de polvo se arremolinaban en los rincones
y los bordes de la alfombra que se desenrolla
me acosaban como un niño abandonado
al que se deja demasiado con el pañal sucio,
polvo que desciende por mi camisón.

Me detuve en el primer piso
temblando por el frío
agarrando mi escoba recogedor fregona y cubo.
Encendí cada luz,
quité cortinas espesadas por el tiempo,
rasqué las lágrimas secas de las ventanas,
quité de la cama las sábanas tiesas,
me llevé el bulto a la planta baja.

Tuve que abrir una costura en la pared,
abrir la puerta a la fuerza
con la uña de un martillo.
Oí pisadas en el sótano,
se había colado un intruso.
Pero solo era una racha de gotas de lluvia
que golpeaban las ventanas
o el viento que me arrebató la vela de la mano.

Me quedé de pie entre los árboles de invierno
grises y sin hojas en el patio hundido
el cielo vasto y eterno.
Recogí la madera podrida.
Me tomó un tiempo encender el fuego.

La casa se llenó de humo
antes que pudiera sacar las hojas
y el hueco animal peludo en las tuberías del fogón
antes de que pudiera limpiar los tubos.

Ya no podía posponerlo más.
Tenía que bajar.
¿Tenía la lavadora y secadora en el sótano?
Movía la lámpara de queroseno ante mí.
Los peldaños descendentes habían desaparecido.
Los vi tumbado a un lado.
Tendría que agacharme
y luego caer,
esperando no romperme nada.

El suelo de tierra acolchó mi caída.
Un agrio olor a tierra espesaba el aire
del cavernoso cuarto
flanqueado por cuatro cuartos más pequeños
con entradas en arco.
Pisé una percha de ropa
que mi susto había vuelto suave
como una goma o una culebra.
Telarañas envolvían las estrechas ventanas.
Las limpié con una escoba.
Entró un poquito de luz de luna.

Una pared medio derruida
se mantenía entre montones de ladrillos,
somieres y cabeceros apoyados contra ella.
Y sobre una silla rota descansaba un vestido
carmesí desvaído tirando a color rata.
El encaje en torno al cuello y las mangas yacía mustio
pero estaba tieso al tacto.

No encontré lavadora
pero sí un fregadero de cemento
apoyado en cuatro gruesas patas.
En lugar de caños y manijas
vi una boca y dos ojos.

Una forma oscura se alzaba cerca del centro.
Era un calentador cuadrado de hierro forjado
apoyado en una plataforma de madera.

Limpié la mugre del medidor
H. E. Smith, Massachussets.
Salían de él tuberías tan gruesas como mis caderas,
otras más finas colgaban del techo en filas.
No fue hasta que llené
de agua el medidor de cristal
cuando me tropecé con algo
que sobresalía del suelo.

Una raíz retorcida había atravesado
la panza de la casa
y de algún modo un brote
había crecido en la oscuridad
y ahora se alzaba un arbolito
nutrido por un sol nocturno.
Entonces escuché de nuevo
pasos que se arrastraban
por el suelo de tierra aplanada.

Eran mis pies los que hacían los ruidos.
Eran mis pisadas las que había oído.


Gloria Anzaldúa nasceu em Valle del Río Grande, extremo sul do estado do Texas, em 1942, e faleceu em 2004, no estado da Califórnia. Foi uma ativista dos direitos das mujeres de color, queer, dos que vivem na fronteira, estabelecendo-a como uma categoria política: raça, gênero, sexualidade e classe social estão imbricados na experiência fronteiriça.

Virginia Brindis de Salas: voz essencial da poesia afro-uruguaia

Este é o primeiro texto que faz parte de uma série inspirada nas publicações do Museo Malba, que costuma trazer para o nosso dia corrente o trabalho de artistas visuais com base em sua data de aniversário, com o mote un día como hoy.

Começo então com a poeta afro-uruguaia e articuladora cultural Virginia Brindis de Salas, que em um dia como hoje, 18 de setembro, nascia em Montevidéu, há 112 anos.

Brindis de Salas é autora de dois poemários, Pregón de Marimorena (1946) e Cien cárceles de amor (1949). Sua produção literária e jornalística se deu durante as décadas 1930 e 1950, época de grande efervescência política e cultural em seu país.

Contribuiu para a revista Nuestra Raza entre os anos de 1939-1948, ao lado de outros importantes intelectuais negros como María Esperanza Barrios, Pilar Barrios e Maruja Pereyra Barrios. A revista Nuestra Raza, empenhada política e socialmente com a população afro-uruguaia, divulgava e ampliava as vozes abafadas na época, funcionando como um ponto de encontro e articulação dos interesses de artistas e escritores afro.

Em maio deste ano, a revista Escamandro publicou alguns poemas de Brindis de Salas traduzidos ao português por mim, Anelise Freitas e Ma Njanu. Para celebrar a data de nascimento desta importante voz da poesia de mulheres negras da América Latina, compartilho duas traduções que estavam guardadas, esperando o momento de ganhar novos leitores e leitoras.

Avozinho Mon

Cabe em mim o canavial
em quatro dedos de rum.
Pouco paga o ianque já
por este milhão de canas
que o negro plantou e cortou.
Mas não trago este trago,
porque é trago de suor.
Aqui o bêbado é marinho,
mas se põe-se a andar
vê-se que é de terra o mar.
A onda solta de um trago
aqui sempre é de furacão.

Mas se aquilo vai ao focinho
com o instinto do corno,
é que o rum sempre ao bêbado
queima-lhe primeiro o bico.
E pelo bico esta vez
não é meu futum que exalarei;
vou jogar ao rico
daqui toda minha sede.

Cantando talvez não possa
passar algodão como seda…
Mas como quero cantar
bem claro, vou sorver
todo o Caribe em um trago.
E esta viagem eu não pago
se já o viajante é o mar.
E matarei com minha boca
o que com balas não mato.

Se um homem cordato é barato,
que se jogue aos meus pés
o trago que não me achata,
que quentes de bachatas
com meus pés quero esta vez
um idioma falar que diga
que o rum está na minha barriga,
que sob este sol mulato
o rum não está em meus sapatos,
mas que também sem festa
se está o ianque, se junta a mim
o rum naquela ponta
com a qual meu potro voa,
porque ante o ianque bêbado
se embebeda minha espora.

É que pouco ou muito já
garanto o meu hoje;
garanto, porque o mar,
embora se ponha a golpear
portos que daqui não são,
sempre com lábia de rum
quão criollo caminha o mar!

Expulso de mim este grito hoje,
arranco de mim este osso já;
como as ondas vão bambas
nunca será ianque o mar!

Mas como o negro solta
água – triste como eu.
Enquanto o ianque no bar
dorme sua sesta de rum.
Este trago não trago
por ser trago de suor.


Da obra Cien Cárceles de Amor

bachata: gênero musical popular, originário da República Dominicana.

criollo: descendente de europeu nascido em terras americanas.

O pão legendário

Oh! pão que não se deixa comer
e parece um produto
que se fabrica em lendas
e não nas padarias.

A melhor fileira humana
de dentes te dá vontade.
Que lindo você fica
oh pão entre esses dentes!

É melhor amado,
é melhor comido,
é bem mastigado
e melhor digerido.

Porque você nunca sobra
e sentem muito sua falta
embora nem sempre, às vezes,
em mesas aritméticas
de lares proletários.

As crianças bem sabem
o sabor que você tem.
E aos seus progenitores
suor e fadigas lhes custa;
muitos custos
que são costas em cima.

Provém da espiga
que nasce em terra firme,
de uma linda semente
que plantou o homem humilde.

Depois vai ao moinho
onde pisam o grão
que se transforma
em alva farinha
que vai até as bacias
das padarias.

Você faz vibrar o canto
mais doce nas polias
dos escravos brancos.

Depois entra no forno;
seu júbilo é de um dia
que dura ou não dura
nas estantes.

Esperando fica
para ir às mesas
até que umas moedas
te levam com surpresa.


Da obra Pregón de Marimorena

Nesta publicação não disponibilizei os poemas em espanhol, para convidar vocês a conhecerem a página autores.uy e baixarem gratuitamente a obra de Virginia Brindis de Salas. Neste site vocês também encontram vários outros autores uruguaios, cujas obras estão em domínio público.


O céu que nos une: uma colagem para um poema

No sono leve da manhã, durante algumas semanas, esparsamente, essa colagem foi se formando, aos poucos, primeiro as leoas, depois os continentes e o azul do céu que nos une a todos. A inspiração para esta colagem começou a se desenhar há alguns meses atrás, quando traduzi um poema que gosto muito, “África”, da poeta Marta Quiñónez.

O processo criativo da colagem e da tradução do poema foram muito parecidos: os encaixes, as soluções, as formas e equivalências vieram aos poucos, em seu ritmo próprio, quando me dei conta, estavam ali, formando um todo. Pela primeira vez um poema me inspira uma colagem, acho que é outra forma de ler um poema, assim como traduzir também tem seu jeito particular de leitura.  

Sem mais espera compartilho o poema de MQ, publicado no livro Kartalá (2002):

África verde rojiza
canta en el interior de un vientre
que está en el sur
abajo en el sur

África se desangra
como una madre primeriza y antigua

África me duele en el esternón
No puedo escribir poemas africanos
puedo escribir poemas negros

África es tan parecida
a esta tierra
tiene ojos azules
y tez negra
no le han hecho partida
de defunción
los franceses y los ingleses
hace siglos la están soñando

África es una leona y una pantera
una madre dadivosa
tiene leche
que sale de su pezón
a regiones tan lejanas de su origen
pero ella es madre y ama y odia

Tengo un pedazo de África
en mi piel
tengo un dolor en el bajo vientre
es África doliente
África sembrada de minas
que le quiebran y amputan
sus raíces más profundas

África grita
y tengo el dolor estúpido
de escucharla
lamento de negro antiguo
antiguo
antiguo

África verde avermelhada
canta no interior de um ventre
que está no sul
abaixo no sul

África se dessangra
como uma mãe primigênia e antiga

África me dói no esterno
Não posso escrever poemas africanos
posso escrever poemas negros

África é tão parecida
com essa terra
tem olhos azuis
e tez negra
não lhe fizeram certidão
de óbito
os franceses e os ingleses
há séculos sonham com ela

África é uma leoa e uma pantera
uma mãe úbere
tem leite
que sai de seu mamilo
a regiões tão distantes de sua origem
mas ela é mãe e ama e odeia

Tenho um pedaço de África
em minha pele
tenho uma dor no baixo-ventre
é África sofrente
África semeada por minas
que lhe quebram e amputam
suas raízes mais profundas

África grita
e tenho a dor estúpida
de escutá-la
lamento negro antigo
antigo
antigo


Convivo com este poema há alguns anos, e cada vez que volto a ele me toca de uma maneira diferente. Traduzi este poema duas vezes, a primeira em janeiro de 2017 e a segunda em meados de março deste ano. A versão publicada é possivelmente sua versão final, embora sempre fique a sensação que falta ou sobra algo, acho que todo tradutor se sente um pouco assim, mas afinal acabamos compartilhando nossos esforços.

Marta Quiñónez é poeta, escritora, editora, filóloga hispânica e psicóloga. Desde o ano de 1996, com a publicação de seu primeiro livro de poemas, Continente Mohíno, publicou mais de 11 livros de poesia e um de contos. Convidada para diversos festivais literários na Colômbia, América Latina e África, Quiñónez também obteve bolsas de criação e premiação literária.

Colibríes e um início

Foi 2017 o ano em que me deparei com um desafio até então inédito, mas que aos poucos faria parte da minha vida de forma inseparável: a tradução. Estava na metade final do mestrado, envolvida na escrita da dissertação, e quase terminando a graduação em Espanhol. Tive a oportunidade de cursar a disciplina “Oficina de Literaturas Indígenas no campo das Américas”, e o trabalho de conclusão foi traduzir um poema.

Debrucei-me sobre as várias sugestões da professora para o exercício e, não por acaso, foi a poeta Irma Pineda e seu poemário Nostalgias del Mar (2006), los que me atraparon. Dentro do universo mágico e divino das nostalgias del mar, o poema “Colibríes” foi meu escolhido para começar o caminho da tradução.

Colibríes


En los días de mi infancia
tuve la certeza de que los colibríes
eran aves de boca larga
no sólo porque era largo su pico
sino porque todo contaban.

Mi abuelo siempre dijo
me contó un colibrí…
y comenzaba el tormento
de oír nuestras propias desventuras.

Los cómplices de juegos
guardamos cierto resentimiento
hacia esas aves de boca floja
que todo lo sabían
hasta que un día
nos contó un colibrí
que los viejos tienen el don de la luz
que sólo el tiempo otorga.

Beija-flores


Na época da minha infância
tive certeza de que os beija-flores
eram aves de boca grande
não só porque era grande o seu bico
mas porque tudo contavam.

Sempre disse meu avô
me contou um beija-flor…
e começava o tormento
de ouvir nossas próprias desventuras.

Cúmplices de brincadeiras
guardamos certo ressentimento
para com essas aves de boca frouxa
que tudo sabiam
até que um dia
nos contou um beija-flor
que os velhos têm o dom da luz
que só o tempo outorga.


Irma Pineda é poeta, ensaísta, tradutora e docente. Escreve em zapoteco, língua originária da região de Juchitán de Zaragoza, Oaxaca, México.

Seu poemário Nostalgias del Mar é bilíngue, com traduções do zapoteco para o castelhano feitas pela própria autora.